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CONHECI UMA BANDA
(NO BAR DO HOTEL)
2022 foi ano de eleições, de festivais e de loucuras por Dua Lipa em território brasileiro. A segunda passagem da cantora pelo país foi confirmada pela organização com um show solo em São Paulo e uma apresentação no último dia de Rock in Rio. Fã de Dua desde o primeiro álbum, a decisão foi fácil: guardar dinheiro, se planejar e assistir todas as duas performances da artista no país. A ideia de perder o show de novo doeria mais que o sentimento da minha carteira.

Sim, eu vivi essa história de fã. Conheci a Dua no ensino médio e não tive a oportunidade de ir ao primeiro show no Brasil, quando ela veio se apresentar na minha casa de shows paulistana favorita, Audio, e como ato de abertura nas apresentações do Coldplay. Na época, Dua cancelou a participação justamente do meu show e quem a substituiu foi IZA, em um show repleto de carisma, vocais no ponto certo e um figurino memorável. Dessa vez, eu veria Dua como atração principal, assim como a banda britânica com quem fez turnê anteriormente.
AUDIO
A casa de shows e eventos em São Paulo reúne artistas de diferentes gêneros e nacionalidades. Tove Lo, Armandinho, Marina Sena, Chase Atlantic, Marcelo D2 e diversos outros já se apresentaram no local.
Ela desembarcou em Guarulhos alguns dias antes da apresentação em São Paulo e encontrou alguns fãs no aeroporto. Em São Paulo, Dua fez a própria turnê ao visitar alguns pontos imperdíveis. Pão de Queijo Haddock Lobo, Casa de Vidro Lina Bo Bardi, Coffee Lab e alguns brigadeiros pelo caminho foram a rota da artista na capital.


O local fica no bairro Jardins, em São Paulo, e é considerado um dos mais luxuosos da capital. Planejado para ter uma área multifuncional onde o hóspede também pode beber um drink, o lobby já foi frequentado por artistas como Fifth Harmony e Charli XCX. No total, são 104 apartamentos club e suítes, 339 deluxe e a suíte presidencial.
HOTEL RENAISSANCE
Na plateia acompanhando a turnê por redes sociais, eu e alguns amigos nos encontramos em frente ao Hotel Renaissance na esperança de conseguir falar algo além de um “oi” – algo extremamente difícil em momentos com pessoas que admiro. Era 7 de setembro de 2022, dia em que bolsonaristas se reuniram na Avenida Paulista em uma manifestação com caráter antidemocrático. Localizado a 200 metros do local do ato, o caminho até o hotel era tomado por verde e amarelo, mas só até encontrarmos as janelas enormes que refletem São Paulo pelos céus. No Renaissance, a polarização era entre pop e punk. Só existiam dois grupos na porta: Dua Lipa e Billy Idol.
Britânico, o artista possui músicas como Dancing With Myself e Eyes Without a Face na discografia. Antes de 2022, ele havia se apresentado na segunda edição do Rock in Rio, em 1991.
BILLY IDOL
Os dois grupos tinham pouco mais de quinze pessoas e se destacavam pela proximidade da diferença. Ambos formados por fãs na calçada de um hotel com o mesmo objetivo de encontrar um artista que admira, mas com estilo, vivências e gostos musicais diferentes. Ficar por um dia estacado, de pé e com pessoas nunca antes vistas em uma calçada não é uma tarefa fácil.

Até que em algum momento, depois de horas sem algum sinal da Dua, a surpresa apareceu: vídeos da cantora ensaiando no Distrito Anhembi foram publicados em redes sociais, ainda na luz do sol. Ela havia saído e ninguém havia notado. Já no início da noite, decidimos então ir embora e jantar. Já que não conversamos com Dua Lipa, por que não sair para comer e beber no feriado da independência? E, de repente, entramos no primeiro lugar que encontramos no Google: o bar do hotel.
DISTRITO ANHEMBI
Já reuniu cinco palcos nos dois dias de Primavera Sound e ocupou todos os espaços disponíveis no local com os mais diversos gêneros musicais. Além do festival e de Dua Lipa, Justin Bieber já se apresentou no Distrito Anhembi.
O lugar respirava música e a energia era de que absolutamente todos ao nosso redor eram de alguma forma artísticos – sejam esses bailarinos, produtores, coordenadores de alguém. No balcão, gringos conversando, dançando e celebrando marcavam a barreira entre os atos de fora da porta do hotel e o mundo paralelo que mora ao lado do lobby de um ambiente de luxo. Era aniversário de uma bailarina da Dua Lipa, então cantamos parabéns; havia um jogo de futebol no telão, então bebemos para acompanhar; passamos uma tarde sem comer, então jantamos. A pretensão era conseguir um “oi”, mas o feriado se tornou a chance de conhecer um lugar que nunca pude entrar. Um desses acabou sendo o banheiro do hotel.
Enquanto conhecia o interior do Renaissance, minha amiga trocava de mesa no bar. Quando voltei da minha própria turnê pelo banheiro, ela estava acompanhada por pelo menos cinco pessoas com o dobro da nossa idade. Estadunidenses, todos não entendiam absolutamente nada de português. No nosso idioma repleto de olhares extremamente questionadores, ela me contou que eles faziam parte da equipe de Billy Idol e estavam tentando entender o que duas mulheres faziam desacompanhadas, no bar de um hotel, à noite. Eles apostaram entre si e chegaram a conclusão que o melhor seria perguntar. Era pior do que eles pensavam: éramos fãs de música pop.

Contamos que estávamos por perto e decidimos parar para beber, o que não deixava de ser verdade. Conversamos sobre shows, trabalho, família, música, viagens, idiomas, manifestações políticas e Brasil, até que o clássico de uma fanfic aconteceu: fomos convidadas para um show. Na ponta esquerda da mesa, o produtor abriu as notas do celular e soltou as palavras mágicas: “coloquem os nomes completos de vocês e os dos acompanhantes. Esse é o meu número. No show, amanhã, vocês só precisarão passar na bilheteria e falar que o nome está na lista. Depois do show, voltem aqui e celebrem com a gente”. Estar na lista VIP de um artista internacional era um sonho de criança às sombras de uma incompatibilidade de agenda. O dia do “amanhã” seria o primeiro dia de show da Dua em São Paulo.
FANFIC
São histórias novas criadas a partir de personagens, celebridades ou universos. Essas tramas criadas por fãs são um sucesso entre as comunidades e abordam os mais diversos gêneros, de romance a terror.

Escolhi o pop do Distrito Anhembi ao punk de Billy Idol no Pavilhão Pacaembu. Depois da Future Nostalgia Tour, cumpri o combinado: aparecer no hotel após a apresentação. Saí do Anhembi e meu motorista de aplicativo acabou seguindo o mesmo caminho que uma van. Eram as mesmas ruas, os mesmos semáforos, as mesmas dificuldades de se locomover na saída de um show para 30 mil pessoas. Tudo normal até pararmos na mesma porta de hotel. Do meu lado, Dua Lipa descia e entrava no Renaissance. É um daqueles momentos que você fica tão incrédula que reage da forma mais natural existente – e depois percebe que não existe maneira normal para reagir a Dua Lipa parada do seu lado.
FUTURE NOSTALGIA TOUR
A turnê do segundo álbum de estúdio de Dua Lipa passou por 4 continentes, 28 países e totalizou 91 shows performados pela cantora. Dividido em 4 atos, a artista apresenta 4 figurinos e 19 músicas na Future Nostalgia Tour.
É a conclusão que eu e uma das vendedoras do Lollapalooza 2023 chegamos sobre nossas próprias histórias. Na situação dela, a ambulante se inscreveu para trabalhar na 10ª edição do festival porque foi a forma que encontrou de assistir às bandas favoritas ao vivo. Fã há mais de sete anos, ela não quis se identificar, mas contou a própria história e me vendeu uma bebida minutos após a realização do objetivo. A ambulante me apresentou cada uma das tatuagens para bandas alternativas, de Arctic Monkeys à tantas outras marcadas para sempre no braço direito.
Um dos principais nomes do line-up do Lollapalooza 2023, The 1975 é formado por George Daniel na bateria, Adam Hann na guitarra, Ross MacDonald no baixo e Matty Healy nos vocais – sendo esse quem dá o tom da apresentação nos palcos. Polêmico, o vocalista é mundialmente reconhecido por acumular momentos marcantes em performances. Matty já fez uma tatuagem, beijou fãs e comeu carne crua – tudo isso enquanto se apresentava.
Pelo público geral, o The 1975 é conhecido pelo clássico bad boy que os lidera. A ambulante conta que reconhecia a fama e entendia que o mais próximo que ela conseguiria chegar seria pelo backstage do Palco Budweiser. O armazenamento da equipe de bebidas era localizado em um local próximo à saída dos artistas, então ela criou um plano: buscar um novo estoque de bebidas no momento exato que o show acabasse. A ideia seria esbarrar com a banda da maneira mais natural possível, sem incomodar. A vendedora conseguiu. Feliz e ainda tremendo, ela mostra que conseguiu falar um “oi” e tirar uma foto com Matty.
O exato oposto de Matty Healy, Manu Gavassi é conhecida por músicas doces, letras cativantes e uma personalidade com um senso de humor autêntico – quase que a personificação da palavra gracinha. Fã, Ana tinha uma faixinha na cabeça e um sonho realizado: ela ganhou a setlist do show Acústico MTV: Manu Gavassi canta Fruto Proibido, em homenagem à Rita Lee, realizado na Audio. A lista é entregue por um membro da produção e contém todas as canções apresentadas, sendo essa feita com detalhes que explicitam de efeitos especiais à momentos de conversa com o público. É uma forma de controle da direção feito pela própria produção do show.
Ana conta que é fã a ponto de ficar horas esperando na porta de um hotel. Ela conhece Manu desde a época da Galera Capricho, em 2009, mas se conectou de fato com a arte expressada pela paulistana apenas em 2018, quando a cantora começou a colaborar com o vocalista da banda Fresno, Lucas Silveira, de quem também é fã. Ana teve a oportunidade não só de encontrar a cantora, mas de entrevistá-la no Meus Prêmios Nick de 2021. Ela conta que se conectou ainda mais com Manu não apenas como cantora, mas como pessoa.
Fã de Manu Gavassi, Ana Marques ganhou a setlist entregue pela equipe da cantora durante a desmontagem do palco.

Do lado de Taylor Swift, as loucuras de fãs atravessam barreiras de persistência, trabalho e até mesmo de casa. No Allianz Parque, centenas de pessoas acamparam para garantir um ingresso para a The Eras Tour. A turnê já é considerada a mais longa da carreira da cantora em número de apresentações e em músicas performadas. Em um espetáculo de mais de três horas, Taylor canta mais de 40 músicas, incluindo duas surpresa – tocadas no piano e no violão – escolhidas especialmente para a apresentação. A regra é única: se a cantora errar a letra ou se performar uma das canções novas do álbum Midnights, a música poderá ser repetida em outro show.
ALLIANZ PARQUE
Inaugurado em 2014, comporta até 55 mil pessoas em shows. Artistas como Harry Styles e The Weeknd já se apresentaram no local.

THE ERAS TOUR
Com datas anunciadas para mais de 20 países, a turnê se consolida como a maior de Taylor Swift em número de shows. São 146 apresentações entre 2023 e 2024. Paramore, HAIM, Sabrina Carpenter e Phoebe Bridgers são alguns dos atos de abertura da cantora.

T4F
Desde 1983 no mercado, o histórico de eventos de entretenimento ao vivo da T4F conta com artistas como Paramore, Taylor Swift, McFly e oito edições do Lollapalooza.
As dinâmicas de Taylor são únicas, colocadas em prática na turnê e a conexão com os fãs é algo de longa data. No total, são mais de quinze anos na indústria dividida em dez álbuns: Taylor Swift, Fearless, Speak Now, Red, 1989, Reputation, Lover, Folklore, Evermore e Midnights. Nesse tempo, a artista veio ao Brasil uma única vez em 2012 para um pocket show sem venda de ingressos. Pouco mais de dez anos após a última passagem da artista pelo país, a T4F registrou mais de um milhão de usuários nas filas virtuais para a The Eras Tour.
Presencialmente, a corrida pelos ingressos não foi diferente. Ariane, Camila e Paulo são fãs de Taylor há mais de dez anos e acamparam por dias para conseguir ingressos. Cada um dos três foi tocado pela música da cantora de uma maneira diferente. Ariane conheceu Taylor em 2009, quando a banda Boys Like Girls lançou a música Two Is Better Than One em colaboração com a artista. Para Camila, antes mesmo de 2010, o YouTube a tornou swiftie ao recomendar o single Teardrops On My Guitar. Com Paulo, foi diferente. Ele conheceu Taylor Swift pela colaboração com a cantora Paula Fernandes na música Long Live, mas só se tornou fã um tempo depois ao assistir frequentemente a cantora em um comercial de perfume na televisão.

SWIFTIE
O termo é a maneira como quem admira o trabalho de Taylor Swift é chamado. Os fãs da cantora são conhecidos por serem extremamente dedicados em shows e na internet. No Spotify, Taylor acumula mais de 100 milhões de ouvintes mensais.

Essa é a segunda vez que os fãs se juntam para conseguir os bilhetes de entrada. Além de se unirem na venda de ingressos da The Eras Tour, Camila e Paulo fizeram o mesmo para a Lover Fest, em 2020. Por conta do cancelamento anterior, eles nunca assistiram a uma performance da cantora ao vivo. Camila explica que geralmente vai sozinha em shows, mas que só acampa para um espetáculo de Taylor Swift.
LOVER FEST
As apresentações de 18 e 19 de julho no Allianz Parque seriam as primeiras após o pocket show realizado em 2012. No Brasil, fãs que garantiram ingressos para a Lover Fest tiveram a oportunidade de comprar bilhetes antecipados para a The Eras Tour.
Os três não vão acampar para o show, mas explicam: “o ingresso primeiro, depois a gente pensa no resto.” Quando se ama a distância, amor é dedicação. No caso do amor de fã, a admiração por alguém que beira a intocabilidade acontece pela conexão a partir da identificação – seja por uma música, uma característica na personalidade ou até mesmo pelo fato de o artista se tornar uma figura que o enxerga de alguma forma. Os fãs são os responsáveis por unir e transformar uma apresentação ao vivo em uma memória inesquecível para cada uma das partes que participa da construção de um evento ao vivo.
Ariane, Camila e Paulo acamparam por dias em frente ao Allianz Parque por Taylor Swift.
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